A força destruidora da repressão sexual (spoilers)
Tô recuperando aqui uma resenha que escrevi em maio de 2022, quando a minha pesquisa sobre representação da cultura incel nos quadrinhos estava no auge. Acho que alguns meses mais tarde ia escrever o projeto da HQ Aqueles Dias, que aborda esse tema. Acho pertinente essa resenha, por isso posto ela aqui agora, mas aviso, tem spoilers. ------------------ Vou tentar resgatar com todas as forças as minhas aulas de literatura da faculdade e tentar fazer uma análise comparada de dois mangás: Minha experiência lésbica com a solidão de Kabi Nagata publicado pela New Pop e Virgem depois dos 30 de Atsukhiko Nakamura e Bargain Sakuraichi. A ideia de tratar os dois ao mesmo tempo é justamente por abordarem a mesma temática mas com vieses diferentes.
Começando com Minha experiência lésbica com a solidão o livro é uma autobiografia que narra a saída da autora de um quadro de depressão e outros distúrbios psicológicos numa jornada de autoconhecimento pessoal e sexual.
É um livro curto, com 142 páginas e cada página é formada por 4 quadros horizontais em que normalmente o desenho fica envolto de dois recordatórios ou dois (ou mais) balões de fala, isso faz com que a leitura tenha um ritmo muito cadenciado e que sejamos jogados a essa monotonia e desesperança que é a vida dela, as palavras por muitas vezes sufocam. (Claro que isso pode ter a ver só na tradução, não cheguei a ver o original, mas acredito que é assim). A arte majoritariamente é em estilo chibi e também casa com a temática, tem muito disso de ela se ver criança e se desenhar como um chibi. E ele é feito todo em nanquim com algumas aplicações de cor em rosa (sempre esqueço o nome dessa técnica).

O que faz ser incrível é realmente ver esses momentos de respiro - que são muito poucos - mas quando o estilo de arte muda ou quando um quadro ocupa um espaço maior ou a página inteira.
SPOILER ALERT
Essa é a primeira quebra no estilo que falei e num momento muito emblemático. O primeiro beijo de sua vida a fez mulher.

E essa é a única página do quadrinho que é inteira, livre e sem requadro, justamente para passar essa impressão da liberdade que ela descobriu. Que justamente é o final da história, né a própria transformação da personagem pelos eventos vividos ali - e diga-se de passagem, eventos muito tensos e até polêmicos - transformam a forma do quadrinho.

O narrador é ela mesma, porém depois dos dessas experiências.
Dito tudo isso, parto agora para uma visão pessoal. Eu gostei muito de todo o quadrinho. Ele em si como obra pode parecer algo muito simples a princípio artisticamente, mas tem alguma coisa ali de sofisticação artistica. A mensagem que ele quer passar é o ponto chave, e é muito interessante ver isso narrado assim de uma forma crua e nua por meio de uma visão de quem vê já sua vida com graça porque sofreu demais.
A crítica que eu pontuo nele acho que é mais uma questão que acredito que seja cultural japonesa porque está presente EXATAMENTE da mesma forma no outro mangá. Um discurso meio neoliberal que até parece não intencional, não sei dizer mesmo, mas perpassa com muita nessas duas obras. Quem entender mais sobre isso por favor, não fique tímido e comente. ------- Vamos falar de Virgem depois dos 30, essa era uma obra que eu estava morrendo de vontade de ler já tem um tempo e o conteúdo é muito interessante mesmo, porém é preciso ler com uma certa cautela.
Começando por aquela análise formal, o mangá é dividido em 8 capítulos que, por sua vez, são divididos entre a parte em quadrinhos e um apêndice. Cada capítulo aborda apresenta para nós uma "modalidade" de incell que se difere das demais. Acredito que nesse ponto, dá para dizer que a intenção do escritor é criar quase que uma taxonomia desses virgens. O único capítulo que se difere disso é o último, que na verdade acaba sendo explicitamente autobiográfico, o autor conta a motivação dele para criar esse documentário.
A arte aqui é uma grande caricatura, o que casa com um certo tom debochado ao falar desses homens. Aqui não há tanto rebuscamento, tentei achar até alguma significação entre imagens recorrentes, mas me parecem que são postas ali justamente como uma piada para reforçar a caricatura. Um exemplo disso é que todos os personagens são retratados peidando. Além disso, um ponto a se ressaltar é que há poucos cenários e quando aparece algum, existe uma certa plasticidade ao desenhar - muito 3D e fotos tratadas, até que faz sentido à obra justamente por serem coisas que não são importantes para narrativa.
A arte aqui mais me parece um acessório do que realmente um meio necessário para se contar essas histórias, acho que o que ajuda a trazer essa impressão também é que os apêndices por muitas vezes acabam por repetir tudo que foi narrado no quadrinho.

Os apêndices em si não são de todo ruins, eles trazem gráficos, fotos e prints sobre coisas abordadas no capítulo (um documento por capítulo, poderia ser bem mais). Inclusive acredito que eles sejam fundamentais para entendermos mais profundamente todo o teor da obra e sacar as nuances que estão nas entrelinhas do documentário.
Dito isso vou partir para uma análise mais profunda dessa obra. Como falei é uma obra que precisa ser lida com BASTANTE cautela. A motivação disso é entender de fato o que é esse conteúdo que está nas nossas mãos.
Lembra ali em cima que comentei que o capítulo 8 é explicitamente biográfico. Então, ao decorrer da leitura, se descobre que o primeiro capítulo é algo que o autor vivenciou. Então temos aqui um mangá que se diz documental e fidedigno da realidade, mas que é totalmente enviesado pela visão desse autor.
Não há aqui um distanciamento entre autor e obra, que normalmente vemos em documentários. Isso fica totalmente claro porque nos apêndices os textos são escritos em primeira pessoa. O narrador portanto dos fatos no quadrinho ganha a voz do próprio autor. Assim, o que temos é uma apresentação enviesada pelo olhar do autor que na verdade está tentando nos convencer da seguinte tese: "Virgens com mais de 30 anos são um problema para a economia japonesa".
Tá, mas qual o problema disso? Bem precisamos entender QUEM é esse autor. Esse autor não é um cara formado em psicologia, sociologia, história ou mesmo jornalismo - então a obra não é enviesada por essas teorias, aqui não se tem um estudo psicológico, social ou histórico do que são os incels. O que vemos realmente são opiniões do senso-comum do que seriam esses caras. Aí é que mora o perigo porque então todas aquelas caricaturas são vazias e manifestações de puro preconceito, como associar uma pessoa gorda à sujeira por meio da representação do peido.
Mas o que torna tudo muito interessante é que por conta da prepotência do autor em colocar capítulo autobiográfico dentro de uma obra documental, podemos ver, claro, com os nossos olhos ocidentais, que ele não é muito diferente daqueles homens ali não. O machismo perpassa o modo como ele conversa com a editora. Claro que isso também está, só que de maneira mais sutil, em como ele apresenta as mulheres durante toda a obra.
Que infelizmente é algo estruturado e de certo modo explícito. Resumindo de modo mais coloquial: o autor me parece muito um cara que pouco entende do que fala, é mais guiado pelos próprios preconceitos e julgamentos e a obra se distancia bastante de qualquer aspecto documental (ou mesmo artístico).
Eu teria muita coisa para falar sobre ela (por isso que acho TODA leitura válida gente). Só para deixar claro, as análises que vou trazendo aqui é realmente um exercício meu de pegar um livro, ler e tentar entender por conta. Não vi nenhuma análise antes. Posso tá falando alguma coisa errada (a famosa merda) por isso, se tiver algo que vocês discordem, podem me dar esse toque! --------- Como eu falei antes, quero comparar aspetos nas duas obras. Uma coisa que já pontuei é que ambas trazem uma ideologia neoliberal que me parece cultural. Na obra da Nagata é não intencional, ela tá mostrando apenas a vida dela pelo seu próprio ponto de vista. Mas Nakamura já assume esse ponto de vista no seu livro quando o tempo todo fala que os virgens são um problema para economia no Japão. Lógico que isso não é o central quando sobrepomos as obras.
Eu abri essa seção com o título a força destruidora da repressão sexual porque os dois livros mostram justamente isso e foi muito legal ter feito essa leitura dos dois ao mesmo tempo. Enquanto o Nakamura traz, com todas as problemáticas já pontuadas, uma caricatura dos homens virgens velhos e nos mostra seus problemas financeiros, familiares e psicológicos, a Nagata, de maneira mais honesta, traz sua própria experiência de ter sido virgem em parte da sua vida adulta e todos os mesmos problemas que ela teve.
Inclusive, acho interessante apontar que para Nakamura, Nagata AINDA pode ser considerada virgem, porque na tese dele ser virgem não é só sobre transar, mas sobre as habilidades sociais envolvidas ao buscar por sexo - o que você não utiliza quando se paga por ele (o autor se contradiz nessa tese, então tô fazendo aqui um trabalho de boa vontade, espremendo muito e coando o que tem no livro tá) e própria Nagata, ao final do Minha experiência lésbica com a solidão tem consciência disso de que ela não tem essas habilidades ainda e precisa aprender muito.
Por mais que seja uma questão cultural, temos que pensar se também não é um fenômeno dos nossos caóticos tempos pós-modernos que traz uma dificuldade de comunicação muito grande, e por consequência, uma dificuldade de socialização.
Uma coisa também a se notar é que o fenômeno incel atinge até mesmo as mulheres. A leitura de Minha experiência lésbica com a solidão acaba sendo muito interessante no sentido de ver isso representado no feminino. E lógico, faz um contraponto IMENSO com Virgem depois dos 30 por abordar o tema sem preconceitos ou mesmo julgamentos.

