Confissões da Bahia
“Confissões da Bahia” é um absurdo no melhor sentido da palavra! A HQ adapta as anotações feitas por um membro do alto clero da Igreja Católica que visitou a Bahia em uma missão para, segundo ele mesmo, “salvar o povo da Bahia da danação eterna”. A partir daí, a história se desenrola com os “pecados” sendo confessados a ele, pecados que para o tipo de sociedade conservadora e religiosa da época eram verdadeiros escândalos. Cada história é um “absurdo maior que o outro”, passando por temas como lesbianismo, orgias, tours sexuais e adoração de outros seres.
O quadrinho é colorido de forma muito interessante. Nos momentos em que vemos o mundo pelos olhos do protagonista, os quadros são em preto e branco, e os personagens aparecem sem expressão apenas com rostos de indiferença ou raiva. Já durante as confissões dos “pecadores”, o mundo ganha cor, e o estilo artístico muda completamente. Cada história é ilustrada por um artista diferente, que imprime seu próprio estilo com muita vivacidade e beleza.
No fim, o quadrinho faz uma crítica ao olhar conservador típico de sociedades teocráticas uma crítica que, infelizmente, ainda é bastante atual. O absurdismo da história vem justamente do contraste entre o olhar do protagonista e o nosso: muitas das práticas descritas, como a homossexualidade, a poligamia ou o contato com outras religiões, são hoje vistas como comuns, mas na narrativa são tratadas com extrema hostilidade pelo protagonista e pela Igreja. O erro dele é tentar impor suas ideias sobre um povo que, embora fale a mesma língua e pertença ao mesmo império, está longe de compartilhar dos mesmos ideais.
A leitura é divertida e visualmente incrível. Apesar das imagens “fortes”, a crítica é muito bem construída e funciona perfeitamente. Recomendo muito!

