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Resenha de "Desvios Transtornantes"

Mão segurando a envoltura da HQ "Desvios Transtornantes", uma HQ quadrada; o quadrado é escuro com o título em prata em tipografia de graffiti.
envoltura da HQ "Desvios Transtornantes", com exemplares distribuídos em encontro em 24/03/25

Reconhecer as ruas de Ribeirão Preto nas ilustrações de "Desvios Transtornantes" não é a única coisa que me trouxe certa sensação de familiaridade ao ler essa HQ. As conversas que perpassam todas as páginas puxam qualquer um para perto, com intimidade, mesmo que a própria rotina não seja parecida com as pessoas ali retratadas. Na minha primeira leitura, lembro-me de comentar justamente sobre isso: como a HQ parece uma grande conversa — Luana estava por perto quando comentei isso e complementou: como as pessoas parecem conversar entre si.


Não existe começo, meio ou fim narrativo; assim como não existe uma ordem exata para você folhear esse projeto gráfico que dar inveja. Mas isso não significa a ausência de uma seleção muito sensível sobre quais conversas aparecem primeiro e o que aparece depois.


No começo de cada fala de alguém, por exemplo Fernanda, Leon, Daitô, há detalhes iniciais de como essa pessoa foi entendendo o seu "desvio" de gênero, no sentido de não seguir aquilo que lhe era socialmente condicionado pela nossa cultura cisnormativa; ou seja, um processo pessoal e interpessoal também, com a relação entre familiares.


E é claro que lemos sobre violências nessas páginas, infelizmente. A pior delas é o assassinato que Luana relata ao meio, enquanto caminha pelo Jardim Paiva. Mas não é o único crime relatado na obra, como a Nat bem coloca nas experiências dela, mesmo antes da situação de rua.

Ao fim, há os sonhos dessas pessoas; objetivos e projetos. Cada depoimento exibe uma dignidade enorme em atravessar a vida entre tantos estigmas, discriminação e violências e ainda assim, sonhar. E para não romantizar nada, nem tornar uma obra inteira de sofrimento para um leitor vouyer, a sensibilidade de Luana foi direto ao ponto.


O bate-papo com Luana, Daitô e Daniker foi bem interessante para explorar outras questões. Pela obra (e também por outras fontes), sabemos que ser uma pessoa trans não é simples em uma sociedade transfóbica, ainda mais em um país com taxas obscenas de assassinatos de pessoas trans. Ribeirão Preto não se isenta disso. Ao mesmo tempo, Daniker ressaltou o quanto estar numa cidade maior (e Ribeirão é, de fato, um núcleo de toda uma região metropolitana) favorece os cuidados e intervenções médicas para a saúde trans; e que, em geral, ele pode conversar mais abertamente sobre o assunto. Não é perfeito, mas é, por relato, diferente do que estar numa cidade pequena e ainda mais no interior. E me faz pensar o quanto muita coisa pode (e precisa) melhorar Brasil adentro.


Um ótimo encontro para uma ótima HQ.

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