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resenha de "Fun home: uma tragicomédia familiar"


página 86 de "Fun Home: uma tragicomédia familiar"; 1 ed. 2018.
página 86 de "Fun Home: uma tragicomédia familiar"; 1 ed. 2018.

Alison Bechdel é um amor. Mas ela só descobre isso em uma sessão de terapia na meia-idade.


Esse trecho não está em "Fun Home" e sim em "Você é a minha mãe?", HQ que a quadrinista explora a própria relação com o pai. Mas tendo lendo as duas HQs, impossível deixar de relacioná-las — ainda mais porque ambas me soam tentativas de racionalizar uma falta de amor expressada tanto pela mãe quanto pelo pai de Bechdel.


Tenho pouco interesse em fazer uma análise psicológica de 3 pessoas reais através de uma HQ, tampouco minha opinião importa para as experiências pessoais da quadrinista. Mas, aproveitando a oportunidade de explorar a relação entre pais e filhos — e, em especial, pais e filhas — também me valho das referências literárias e da psicologia que a própria Bechdel traz para entender seus pais.


O pai de Alison, Bruce, é professor e agente funerário. A "fun" home não é nada divertida, mas fúnebre — e é a casa de Bechdel, seu lar. Esse é claramente o paradoxo do tom narrativo: Alison relata um percurso fúnebre em tom quase cômico, mas ainda assim um tanto asséptico ou distante, como se o humor ou a intelectualidade pudessem trazer um recorte mais limpo, uma autópsia mais certeira de seu pai; embora eu admita que isso está no título: "Fun Home: Uma tragicomédia em família".


O fato é que é impossível determinar com 100% de certeza se Bruce Allen Bechdel cometeu suicídio ou se acidentou no que ela ironiza como une mórt imbecile.


Mas Alison é obsessiva. Inclusive, relata com franqueza sua experiência com o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) na infância. E ela obsessivamente tenta encontrar uma razão, talvez até culpa, para processar a morte (ou suicídio) do pai, mesmo entendendo que não é possível determinar tal coisa.


Ela argumenta sobre o divórcio dos pais. A vida limitada por uma sociedade homofóbica enquanto ele é homossexual. As referências literárias à suicídio, as anotações. O pouco de carinho que ele demonstrou aqui e ali, como a cena de um banho que ele lhe deu, ainda que a mãe tenha feito isso milhares de vezes sem a reverência afetiva (página 22). Bruce Allen Bechdel é tudo isso: um homem de meia-idade, gay ainda no armário, culto e refinado que trouxe também certo rigor estético e intelectual aos filhos — e muito prático também, dada a sua relação com a funerária, com os filhos e com a esposa.


Afinal, Bruce Allen Bechdel também é um homem que aliciou um menor de idade enquanto se mantinha num casamento quase de fachada para sua própria sexualidade; seguiu a cartilha do homem-hétero-convencional ao casar e ter filhos, mas não reservava nenhum amor especial à eles. Pelo contrário, não são raras as menções à agressões ou, no mínimo, a tensão que paira no ar devido ao pai. A intelectualidade, em especial a literária, é o único chão comum entre Alison e seu pai. A racionalização deste episódio final de Bruce, a possível "culpa" dela, é o último vínculo o qual ela tem dificuldade de romper.


Eu entenderia isso mais facilmente se Bruce Allen Bechdel, em todas as suas contradições humanas, fosse também mais amoroso. Mas não é.


A verdadeira contradição, para mim, é como Alison o ama tanto sem que a recíproca seja, de fato, verdadeira. E é claro, o quanto isso é comum na relação entre pais e filhos, que sempre traz essa hierarquização incômoda e patriarcal. Em "Você é minha mãe", Alison traz o conceito de Winicott de que um bebê jamais odeia a mãe sem a mãe odiá-lo antes, mas Alison sequer chega a odiar (ou parecer odiar) seus pais, ainda que receba toda e qualquer hostilidade deles por uma vida que eles, seus pais, decidiram viver.


Minha interpretação é que a obsessão de Alison para entender Bruce Allen Bechdel é muito mais simples: ele foi alguém com questões internas não resolvidas; refinado, mas violento, que faleceu do que ela também admite como une mórt imbecile. Mas pelo fato de ser seu pai, o horizonte se torna muito mais nublado.


Pessoalmente, acho que além de une mórt imbecile, foi une vie imbecile.


Não acho complexo um pai ser terrível com os filhos e com a esposa porque, pasmem, a sociedade é homofóbica. Há muitos héteros que fazem o mesmo ou pior sem esse panorama. Isso pode explicar, mas não justificar. Ninguém deveria estar além de qualquer crítica só porque teve a capacidade biológica de se reproduzir (ou só porque está imerso nas próprias dores). Tenho a impressão, inclusive, que a situação é interpretada como muito subjetiva/complexa porque é uma relação entre pai e filha; se fosse entre Alison e um relacionamento romântico, os abusos seriam muito mais "óbvios" à terceiros.


E talvez até ela própria.


Não desgosto dessa HQ; acredito que é muito bem cadenciada e desenhada. No entanto, não consigo encarar Bruce Allen Bechdel como Alison enxerga o pai.


Muito menos, entendo o cultivo desse último vínculo que os unem. Mas, é claro, Alison é um amor.

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