Bendita Cura
Já tinha lido essa HQ no ano passado, então foi interessante revisitá-la tanto tempo depois. Acredito que minha percepção sobre a obra mudou depois nesse intervalo, ainda mais sabendo que a HQ foi originalmente publicado de forma seriada na internet. Acho que explicou algumas coisas, como ganchos ou capítulos que pareciam um tanto isolados. Sobre a obra em si, acho que o que chama atenção de cara é a decisão sobre cores que trazem uma camada de significação muito importante, com os cabelos e as roupas de Acácio ficando completamente azuis quando ele enterra sua orientação sexual; é o azul de "menino", de "macho". E alterna com o rosa quando ele está apaixonado ou se aceita. A HQ explora bem a sexualidade de uma forma crua e também naturalizada, com corpos nus e sexualidade adolescente aflorada, com masturbação e sêmen. Não achei desnecessário, até porque o assunto também é esse, sexualidade. Mais chocante foram os processos de "cura" que o protagonista foi submetido.
Também importa saber que existe o contexto da Ditadura Militar no enredo, o que lança uma camada ainda mais repressora de sexualidade fora da heteronormatividade.
Nesse processo de autodescoberta e repressão, dá para observar a violência que o Acácio internalizou depois de passar pela tentativa de "cura gay" que os pais lhe impuseram. E o protagonista também é controverso com outras atitudes, por exemplo ao reproduzir falas preconceituosas e também trair a esposa com muitos outros homens durante o casamento. A HQ não se propôs a isso, mas seria um ponto interessante explorar um pouco mais a misoginia internalizada de pessoas que, no fim das contas, estão dentro da sigla LGBT+.
Enfim, vale a leitura ainda que o protagonista esteja longe de ser uma "vítima perfeita" que você sente apenas mal por ele o tempo todo. Mesmo a parte da traição é bem realista em certos aspectos, bem como seu reconhecimento tardio como um homem gay.

