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Resenha de "Minha Experiência Lésbica com a Solidão"

Quadro da obra; a mulher senta-se no meio de uma bagunça e pensa consigo mesma que achava que sexo era inato, mas é comunicação.
Trecho da obra, em que Nagata conclui que "sexo é comunicação".

Posso elogiar a obra por ser muito honesta, mas fico mais incerta de elogiar muito mais além disso.


É claro que minha opinião pouco importa porque é a experiência pessoal da autora — Kabi Nagata — que, com 28 anos, se dá conta o quanto é uma pessoa sem traquejos sociais, incluindo sexo. Essa ansiedade pela própria virgindade a faz contratar uma "acompanhante" em uma agência e enfim ter uma experiência sexual que, diga-se de passagem, é a experiência menos sexual possível. A premissa é basicamente essa e não é bem um spoiler porque o começo já explica o geral que a fez estar naquela situação incômoda. No restante da obra, atravessamos os severos problemas com saúde mental e relações familiares de Nagata.


Primeiro, os merecidos créditos: Nagata explora bem a própria vulnerabilidade e até mesmo sentimentos que podem ser considerados humilhantes ou tabus, como a necessidade de validação e fascinação pelos seios da própria mãe. Isso ela chega atribuir à própria homossexualidade somada a sua infantilização, o querer o "peito", etc. Um prato cheio para psicanalistas de plantão. E no geral, sinto que é natural e honesto falar da sensação de inadequação — e as pessoas costumam gostar de ler sobre isso porque, acredito eu, todos nos sentimos inadequados em proporções e contextos variados. Também é corajoso ler sobre mulheres (personagens ou autobiografias) que sejam "patéticas", "fracassadas", incluindo de formas que pouco dá para as pessoas romantizarem: a suposta preguiça, falta de higiene e falta de aspiração. Mas eu vou voltar nesse ponto depois.


Sobre a forma: o apelo estético aparece mesmo na simplicidade, com traços ora exagerados demais para ressaltar o caos mental de Nagata, ora para bem sinceros e belos em momentos reflexivos. Apesar da nudez e o óbvio tema da sexualidade, não existe aquele traço sexualizante do corpo feminino. Também não é confuso de acompanhar ou algo do tipo, embora eu tenha lido em inglês e não saiba dizer como está a versão em português.


Dado os elogios e com a completa consciência dos problemas em criticar experiências pessoais e relatos autobiográficos, aqui vão os pontos que me chamaram atenção negativamente:


Nagata admite em diversos pontos o quanto ela é uma pessoa sedenta por aprovação dos outros; primeiro seus pais. É só com a sugestão de estranhos em entrevistas de emprego e, depois, com a validação de leitores que ela passa a levar a sério, paradoxalmente, contrariar as expectativas dos pais e viver uma vida mais voltada para si. E é claro que ela tem avanços louváveis ao longo da obra, primeiro com as parte mais crítica que era seu distúrbio alimentar, sono e self-harming. No entanto, a obsessão sobre si própria é até exaustiva, senão um tanto perturbadora. Nagata esteve tão entranhada em si (e admito que isso ocorre também por transtornos emocionais), que sequer se pergunta se as amigas que tinha no colégio se sentem tão miseráveis quanto ela, pelo contrário: ela parte do pressuposto do quanto os outros estão e são melhores do que ela; e, por isso, ela é permanentemente uma "fracassada".


E isso me faz questionar se nós, os leitores, não somos apenas voyeurs que validam o quanto ela é frágil, patética, inapta, coitada. Fiquei me perguntando se a honestidade e a coragem de se mostrar como uma mulher com tantas falhas não é a exploração voyeurística do próprio sofrimento; de ser vista e aprovada. Mas isso eu vou deixar para os psicanalistas de plantão.


Outro ponto é o quanto a palavra "lésbica" parece um tanto... Vazia. Tenho que me demorar para explicar melhor sobre essa minha impressão: talvez seja apenas porque Nagata está começando a se entender melhor na vida adulta como uma mulher sexualmente interessada em outras mulheres, mas a identidade dela mesmo, como mulher lésbica, pouco é construída. Na verdade, me soa mais que ela está APENAS sexualmente interessada mesmo, porque Nagata pouco vê (ao menos nessa obra) as outras mulheres como indivíduos complexos, mas sim como as prostitutas que fazem parte daquela ideia fixa de pessoas que aproveitam melhor o mundo, enquanto ela não. Elas existiram para tentar (sem sucesso) sanar suas inseguranças e necessidades, reais e imaginadas... o que me faz voltar a lembrar da ideia de mãe que ela explora no começo da obra.


Posso dar o mérito que ela chega a refletir que sequer consumia muito material erótico ou romântico entre mulheres antes de começar a desenhar/escrever sobre, o que bate com o início da exploração da própria sexualidade. Ela também tem algumas reflexões rápidas sobre gênero que poderiam ter sido melhor aprofundadas, caso fosse uma preocupação dela na época — o que não parece ser. Mas Nagata pouco reflete, ao menos nessa obra, o que é ser e se relacionar com outras mulheres lésbicas dentro de um sociedade machista e patriarcal.


Esse último aspecto me faz pensar o quanto o raciocínio é que não se relacionar é visto apenas como uma falha individual, enquanto fica muito claro que existem muitas outras questões ali acontecendo. Além das dificuldades na relação com os pais, muito da conversa ali é sobre dinheiro e trabalho.


A sociedade japonesa tem uma tendência bem forte de ressaltar a cultura do trabalho e obediência, o que sempre vai ser apetitoso para o neoliberalismo. E ali, fica claro que as relações são permeadas por esses aspectos: aprovação dos pais por meio do valor do trabalho/contribuição financeira; ideia de valor como alguém com trabalho estável; a sexualidade a ser explorada com dinheiro.


Eu ainda recomendaria a leitura como uma obra que mostra muito bem que o sexo, como atividade, não é sinônimo de entendimento completo da própria sexualidade — o que a quadrinista chega a pincelar quando diz que o sexo é comunicação e ela é terrível nisso.

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