Desvios transtornantes
A HQ já começa com uma proposta de dar voz para pessoas trans em Ribeirão Preto, uma cidade no interior de São Paulo. O próprio formato físico chama atenção porque você não apenas lê, você segue pelas ruas de Ribeirão Preto ao abrir e virar páginas, no começo fiquei meio confusa em como ler mas depois me acostumei. A arte dá uma seriedade e humanidade para as pessoas entrevistadas que eu gostei bastant.
Não sei muito o que dizer porque a obra já fala por si só, a arte dá voz para quem se vê deixado de lado pela sociedade, um "pause" em um mundo onde apenas um padrão é considerado correto para uma outra perspectiva.




O comentário que mais me chamou atenção foi sua crítica na obssessão própria de Nagato, então vou dissertar sobre ela aqui.
Acredito que o fato de Nagato repetir várias vezes como é "patética" pode ser uma faca de dois gumes. Aos olhos de alguém que teve uma experiência parecida em relação a saúde mental, pode ser acolhedor ao leitor e uma sensação de pertencimento mas ao mesmo tempo fazer ao leitor se sentir mais confortável em se afundar nessa "exploração voyeurística do próprio sofrimento" que você mencionou, e não a uma futura fuga do abismo mental.
Deste aspecto vejo ela como negativa. Porém, eu pessoalmente vejo o mangá quase como um "diário" de Nagato, ela relata suas experiências não apenas com objetivo de se relacionar com o leitor, mas de se expressar artísticamente em uma forma de desabafo.
Não vejo como negativa, nem positiva. Vejo como um desabafo de alguém sofrendo com transtornos mentais e não como um simples mangá. Não sei se me expresso bem, mas senti quase o mesmo sentimento lendo "O declíneo de um homem" de Osamu Dazai.