Resenha de "Degenerado"

Roupas, apesar de associadas à gêneros, não "têm" gênero. Isso fica claro quando esse personagem do sexo masculino veste um vestido, assume o nome "Suzanne" e continua a agir como qualquer outro homem misógino.
Reler "Degenerado" foi interessante. Na minha primeira leitura em 2024, eu não sabia nada sobre a obra e gostei da proposta: um homem escapa da Primeira Guerra e veste-se de mulher, com ajuda da esposa, enquanto é desertor. E folheando a HQ rapidamente, só me deparei com pontos românticos dos personagens. Pois bem, não foi nada igual "O Príncipe e a Costureira", uma HQ mais juvenil de proposta cross-dresser.
Talvez essa HQ fique ao lado de "Black Dog: os sonhos de Paul Nash" na estante mental que tenho. Tanto pelos tons sombrios das ilustrações quanto o tom sombrio da narrativa. O protagonista, Paul, até serve durante um breve período na Grande Guerra. Vale lembrar que os personagens são franceses e a história se passa na França. E após um evento traumático em que vê a cabeça de um colega explodir na sua frente, ele decide desertar e recebe ajuda de Louise, sua esposa.
O começo da obra é bem doce, com Louise e Paul se aproximando. E por isso eu tinha a impressão de que a doçura permaneceria, mas não foi o que aconteceu. Louise ajuda o marido e os dois passam a morar em um apartamento pequeno. Entediado, ele se veste com as roupas de Louise para sair.
E toma gosto por isso.
Louise não é contra, pelo contrário: o ajuda a procurar roupas adequadas, ajuda-o a mimetizar um comportamento e voz feminina, depila seu bigode. Conforme a história vai avançando, Paul se identifica mais com sua persona "Suzanne". O problema é que Suzanne parece ainda mais da noite do que Paul. A guerra acaba, mas ainda persegue-se desertores.
Vem o alcoolismo, a gastança, a promiscuidade. Suzanne se encontra com homens e mulheres em uma praça e não demora para levar Louis, que até então sentia ciúmes e exaustão de sustentá-lo com seu pobre salário de costureira. Mas Suzanne também sente ciúmes explosivos sobre Louise quando esta é desejada, quando esta também se entrega ao prazer, ao álcool e promiscuidade. Não demora para acontecer agressões.
A situação progride, degringola. E mesmo com a retirada da ordem de morte contra desertores, ele permanece como Suzanne. Há um breve momento em que ele tenta manter sua vida comum como Paul novamente, mas não arruma um trabalho convencional e também não se interessa em performar masculinidade. Suzanne volta. E as agressões também.
Em um episódio de briga, Paul é assombrado por visões da guerra, de seu colega explodido, um cavalo e Suzanne. Os pesadelos de guerra são recorrentes. Louise coloca-o para dormir e dá um tiro em sua cabeça. As cenas seguintes são do processo criminal que Louise está sofrendo, supostamente grávida do esposo. É absolvida.
Me chocou a história ser baseada em uma história real. Me choca também a violência deste personagem/pessoa real, a falta de mínima consideração ou respeito por Louise, que ajudou Paul a escapar de uma provável morte na guerra para então ser conduzida mais e mais para um caminho de pobreza, alcoolismo e violência. Paul poderia ter simplesmente não ter agredido Louise, optando por viver sua vida dupla sem ela.
Paul, na realidade, não sabe nada sobre "ser" mulher, por mais que tenha apreciado ser Suzanne e desfrutar a noite. Ele sequer precisava se entender como uma mulher trans; mas transgredir algumas convenções na sociedade enquanto reforça violência patriarcal (e se aproveita de outras convenções da sociedade) é, no mínimo, hipocrisia. Isso acontece porque, justamente, um vestido não basta.

